“Ao agir com a força de transformar, buscamos nossa realização pessoal para sermos mais plenos e assim gerarmos relações interpessoais movidas pela união, integração e cooperação legítimas.”

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Fui convidada pela Renata Rocha, uma amiga querida e também consultora, para um “curso diferente” no sábado dia 31 de janeiro, e como somos muito sintonizadas logo me animei. Quando vi o nome do tal curso: “Festival de Aprendizagem” e, ainda organizado pela Cristina D’Arce, Coordenadora da SoL Brasil (Society for Organizational Learning ou Sociedade para a Aprendizagem Organizacional), pronto… desmarquei tudo e me inscrevi.

O Festival foi conduzido pela parceria SoL e REOS Partners, consultoria internacional recém instalada no Brasil. A festa também foi de culturas diferentes: conheci pessoas que atuam com desenvolvimento humano em contextos organizacionais da África do Sul, Estônia, Holanda, Canadá, entre outros países. Além de reencontrar velhos e bons amigos de jornada. Enfim, a “rede” parece cada vez mais viva e interessante. Quando falo em “rede” me refiro ao grupo de pessoas conectadas na busca incessante de ampliação da consciência, buscando saber e aplicando esse conhecimento na transformação de si mesmo e na construção de relações sociais mais plenas, pacíficas, construtivas e amorosas. Transformação e Presença são as palavras-chave.

A coerência do Festival de Aprendizagem foi marcante. O espaço onde aconteceu o evento foi nas salas do Projeto Ancora* (Km 22 da Rod. Raposo Tavares), coffees, almoço e coquetel foram organizados pela Cacauí** e a harmonia imperou durante todo o dia. Ah! E a tradução era sussurrada***, ou seja, o máximo da cooperação e do bom senso.

Eram 3 Oficinas simultâneas conduzidas pelo pessoal da REOS e da SoL. A “Teoria do U”, que tem a marca de Otto Scharmer e Peter Senge, era o denominador comum de todas as falas, de todas as vivências, permeando o inconsciente coletivo até nos coffee-breaks.

Eu participei no primeiro horário da Oficina conduzida por Adam Kahane, grande nome internacional quando se fala em sistemas sociais complexos. O tema era A Linguagem do Poder e a Linguagem do Amor: Cinco passos para se co-criar novas realidades sociais”.

Poder é o motor da transformação para a auto-realização e Amor é o motor da união, da unificação. Por meio de 5 passos, que Kahane comparou ao despertar do Espantalho em O Mágico de Oz, vamos aprendendo a “dançar” com fluidez usando o Poder com Amor. Ao agir com a força de transformar, buscamos nossa realização pessoal para sermos mais plenos e assim gerarmos relações interpessoais movidas pela união, integração e cooperação legítimas. Hahane brilha e facilita um diálogo muito rico e reflexivo, quebrando o estereótipo de que quando a energia do Amor predomina há harmonia. “Amor sem Poder é anêmico, sem vitalidade para transformar”. Lindo!

A segunda Oficina que escolhi (escolher uma Oficina nesse tipo de evento é sempre um sofrimento!!!) foi: “Círculo de Perguntas – contextos inovadores para a Aprendizagem Organizacional e o Pensamento Estratégico”, método que Cristina D’Arce apresenta com maestria insuperável.

Vivenciamos a experiência do Círculo de Perguntas com o tema escolhido pelo grupo – Expansão da Consciência, e provamos do poder mágico de indagar. Ainda vivemos sob os escombros do velho paradigma em que esperamos que os líderes tenham boas respostas, posições seguras e idéias formadas.

Um brainstorming de perguntas parece como aprender a andar, pois nos tira dessa aparente segurança das certezas, dos nossos modelos mentais quadrados para abrir às possibilidades infinitas, ver aquilo que ignoramos a existência. Aqui está a raiz do Pensamento Estratégico sustentável, fora-da-caixa. Minha colega do lado, gestora de cultura organizacional de um dos maiores bancos nacionais, chegou à genial pergunta, durante um exercício: e se no futuro não houver mais dinheiro, o que o Banco vai “vender”?
Muitas “fichas” caíram e não vejo a hora de facilitar um Círculo!

A terceira Oficina foi conduzida pela Mille Bojer (responsável pela REOS Brasil) e trabalhou a abordagem de “Deep Democracy” (Democracia Profunda) sentindo o inconsciente de um grupo. Trata-se de um modelo prático e bem interessante para a construção de consenso em tomada de decisão grupal, dando voz para as minorias e opiniões divergentes co-criarem a solução em conjunto com a voz dominante.

Experimentamos uma das vivências de Deep Democracy e sentimos os vários movimentos do grupo, desde o consenso absoluto e pouco construtivo até as opiniões divergentes acharem espaço para se manifestar. Foi nesse momento que o sangue subiu, os ânimos esquentaram e…como era apenas uma “degustação”, ficamos por aí! Aliás, eu fui uma das que se posicionou de forma diferente da “massa” e presenciei esse gosto amargo do confronto, essa solidão que bate ao olharmos para um lado diferente do “grupão”, sentimento esse tão fortemente evitado pela maioria das pessoas que conheço e trabalho.

Essa abordagem pode ser muito útil para minimizarmos o comportamento, que na linguagem Hogan, chamamos de Passivo-resistente e acaba se proliferando nos ambientes corporativos. Ao evitar confrontos duros e conflitos existentes, muitos profissionais abandonam suas idéias e posições numa discussão sobre uma decisão coletiva e acabam sendo voto vencido. Eles parecem ter concordado e estarem engajados com a decisão, mas ao voltarem para sua estação de trabalho, torcem para que a decisão dê errado ou até mesmo agem de maneira a boicotá-la. Aos poucos a confiança nessa pessoa vai se enfraquecendo.

Minha ressalva quanto a aplicação do método de “Deep Democracy” se dá ao considerarmos grupos que estão com problemas estruturais de confiança entre os membros. Acredito que, nesse caso, antes de aplicar as dinâmicas apresentadas em 4 etapas, é preciso fortalecer os vínculos de confiança e restaurar as vozes de poder e de influência do Grupo, para que as minorias divergentes possam ter um campo aberto e limpo para se expressarem livremente.

Que dia lindo foi esse sábado ensolarado. Me senti nutrida e revitalizada pelo conhecimento adquirido viceralmente e por sentir que minha tribo está viva e pulsante.

*Projeto Âncora é uma ONG que oferece num lindo espaço: educação, cultura e esporte para 700 crianças e jovens de baixa renda. Vale a pena apoiar essa iniciativa!
**Cacuí é uma empresa de serviços de alimentação em eventos com forte responsabilidade sócio-ambiental. Até o café era orgânico (e delicioso).
*** na tradução sussurrada uma pessoa que conhece bem o idioma do facilitador senta-se ao lado de alguém que não compreende aquele idioma e sussurrando em seu ouvido traduz cada frase.

Fabiana B. Maia
Fevereiro/2009