Colocar Limites — é de pequenino que se torce o pepino…
Publicado por admin em 19 Fev 2009 | sob: Gestão Pessoal
Escutando no rádio um breve comentário de um pediatra sobre a importância de se colocar limites para garantir uma boa educação e formação do caráter de nossos filhos, pode-se estabelecer um paralelo com a gestão de consequências para o desempenho dos funcionários de uma empresa. O ditado acima é mais antigo do que andar prá frente mas é muito válido também do ponto de vista da Psicologia do Desenvolvimento, se considerarmos que uma boa parte da formação de nossa personalidade se dá na primeira infância (até os 8 anos aproximadamente…).

Quem tem filhos deve ter muito vívida a lembrança de momentos em que a criança desde seus primeiros meses começa a se especializar em testar os limites estabelecidos pelos pais e outras figuras de autoridade, sem contar com as Leis da Física — como a Gravidade, a Termologia e a Eletricidade. Esses adoráveis e ardilosos especialistas logo encontram brechas nas instruções recebidas e, principalmente, descobrem a divisão de poder entre o pai e a mãe — “Já falou com sua mãe?” e vice-versa. O desalinhamento desta dupla de educadores é o ponto fraco que aqueles anjinhos captam e usam com maestria para se desvencilhar dos limites.
A dura e doce missão dos pais é a de antecipar, de formas mais ou menos sutis, os limites que serão impostos pelo mundo da criança que se transforma em um adolescente (aborrecente para alguns..) para entrar no mundo adulto de limitações em todas as esferas da vida — emprego, estudo, relacionamentos, sucesso financeiro, etc, fazendo alguns pensarem na ausência da liberdade como a regra principal.
Nos Anos 70 ficaram famosos os livros: “Liberdade Sem Medo, Liberdade Sem Excesso” que tratava de uma abordagem educacional muito mais antiga — Summerhill. Fundada na Inglaterra em 1921 por Alexander Sutherland Neill, Summerhill é uma das pioneiras dentro do movimento das escolas democráticas, onde as crianças podem aprender segundo seu ritmo e preferências e contam com uma dinâmica de assembléias, com a participação de todos, para decidir as normas da escola. O célebre e incrível álbum do Pink Floyd — The Wall — crivou o sistema educacional tradicional de balas com o refrão: “We don’t need no education” entoado por um coral de crianças. Utopia ou realidade?
Os paradoxos estão presentes como nunca em nossas vidas — liberdade ou limites? Seria muito fácil se existisse uma resposta simples a estes dilemas. Se damos excessiva liberdade a nossos filhos corremos o risco de um dia termos que interná-los em uma clínica de dependência química. Se cerceamos exageradamente, criamos adultos inseguros, indecisos e infelizes. Os limites, como as fronteiras geográficas, naturais e políticas, são uma realidade do mundo como o conhecemos hoje e ignorá-los é prepararmos desadaptados ao convívio social harmonioso e pacífico.
E no mundo corporativo? Os gestores devem desempenhar o papel dos pais no processo educativo de convívio e sucesso neste mundo?
Aquelas características observadas nas brincadeiras das criancinhas no “tanque de areia” — o nervosinho que chora a toa, o introspectivo que faz os castelos mais complexos, o mandão que domina a brincadeira e outros personagens — se transformam nas competências corporativas, com nomes pomposos e definições complexas: Controle de Estresse, Iniciativa & Proatividade, Liderança, Criatividade & Inovação dentre outras. Trocamos o tanquinho de areia pelas mesas de reunião, mas continuamos convivendo com as mesmas características positivas ou negativas de personalidade que se formaram em nossos primeiros anos de vida.
Os limites que não foram colocados pelos pais, quanto a hora de dormir, o número de horas na frente do vídeo-game, a hora de voltar da balada, voltam-se como missão para os chefes pela gestão de consequências, ou seja, a responsabilidade por reconhecer e recompensar o comportamento alinhado às competências e valores corporativos e redirecionar as atitudes e ações que rompem com os princípios do mundo corporativo de cada organização. por meio de feedbacks específicos, claros e na hora certa.
Também neste mundo empresarial, o adulto vai procurar testar os limites de prazo, qualidade e produtividade do trabalho que entrega. Igualmente nesse ambiente, os funcionários buscam eventuais desalinhamentos entre o chefe e seu superior, mas mais crítico ainda, observam a coerência entre discurso e prática de seu supervisor para aprender o certo e o errado. Daí, a dura e doce missão do chefe de desempenhar o papel de modelo dos valores e comportamentos pregados pela “família” (?) corporativa em que está inserido.
Os almejados sucesso e realização profissionais dependem portanto de um processo de autoconhecimento estratégico — dos líderes para entenderem o quanto conseguem colocar limites, gerindo as consequências para o desempenho dos membros de suas equipes, sem cercear a liberdade criativa destas. E aos membros da equipe, cabe procurarem os modelos corretos, feedbacks sobre seu desempenho do chefe e de outros, bem como outras formas de avaliação para descobrirem que tipo de areia carregam em suas atitudes cotidianas.
Roberto Santos
Fevereiro, 2009
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