Currículo, Criatividade ou Credibilidade?

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“…para aqueles que queiram estar prontos para, mais do que surfar (nestas ondas de progresso econômico), navegar em alto mar, com um Norte firme e decidido, devem estar prontos para conhecer cada posto de sua embarcação – do porão ao convés, do esfregão ao leme, antes de chegarem à cabine de comando.”

Pode-se dizer que no acerto parcial de contas de 2008-09, muitos técnicos, políticos e leigos tiveram que engolir suas críticas veementes à famosa reação do líder de nossa nação sobre a onda de crise econômica global – seria apenas uma marolinha para o Brasil. Aparentemente, mesmo os mais céticos, concordam com a novidade de mostrarmos eficiência em debelar o fantasma de uma recessão que se ameaçava como letal. Além disso, já mostram sinais de um antes improvável crescimento no ano que se inicia.

Chega a hora dos otimistas e oportunistas de plantão, pintarem um cenário de crescimento acelerado para os próximos anos, estimulados pelo orgulho renovado de sermos brasileiros (como é Deus…) e com a escolha para dois eventos de destaque global – Copa do Mundo e Olimpíada. Nunca neste país, tanta gente acreditou tanto em nosso potencial, parecendo que aquela lenda do “Brasil: o País do Futuro!” ainda vai virar realidade no presente.

Não precisa tanto, já vivemos um clima de euforia, de índice de desemprego próximo de 8%, um quase que pleno emprego se excluirmos aqueles profissionais do seguro-desemprego e do bolsa-família, ou “bolsa eleitoral”. E o que se vive no Brasil, ou pelo menos na cidade em que vivo (São Paulo), é o que chamei há anos de o paradoxo do desemprego – muita gente desempregada, mas muita gente procurando empregados. O paradoxo é provocado pela decadência na formação escolar, ética, cultural e motivacional da força de trabalho chamada de Geração Y ou da nova Geração Milênio.

Jovens ansiosos para entrar e obter um certificado que senha algum simulacro ao menos, daquelas três letrinhas americanas mágicas para enriquecer o CV – o MBA (ou emibiei), também conhecido como “qualquer pós-graduação que me permita dizer em entrevista que tenho algo mais do que um mero curso superior.”

Chovem emibieis em linhas e mais linhas de currículos recheadas de pós-graduações mas seus donos ainda não sabem usar aquelas supérfluas regras de concordâncias verbal e nominal, isto quando não confundem “perca” com “perda” e outras torturas à língua pátria.

Além disso, pelos canudos universitários escorrem semi-profissionais, semi-preparados para um mercado de trabalho e caem no desemprego. No entanto, pela carência de mão de obra, estes semi-formados conseguem empregos, seguidos de sucessivos fracassos. É comum ouvir colegas consultores contarem suas agruras de precisarem ensinar seus interlocutores cada vez mais juniores e despreparados a lhes dizer o que precisam encomendar – um verdadeiro festival de mediocridade.

Qual seria a resposta: o reforço de uma formação acadêmica ou ser mais criativo para ser bem sucedido para surfar nesta onda de desenvolvimento de nossa economia?

Ambas anteriores, além de outras medidas são necessárias e urgentes para aquela lenda do “país do futuro” que eu ouvia em meus tempos de menino não perdurem para o tempo de meus bisnetos.

O reforço acadêmico e curricular precisa iniciar seriamente na base para que universitários e “pós-graduados” saibam Ler e Escrever, com Letra Maiúscula mesmo! Sonho louco, ilusão, outra lenda – parece que sim mas precisará se transformar em realidade para chegarmos aos tornozelos dos países que levam a sério suas vocações, como a Coréia, que nos envergonham com a carga horária da educação fundamental de seus jovens.

O exemplo do exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) que aprova menos de 20% dos formados como “bacharéis em Direito” por ano, para exercício de profissão, deveria ser seguido por todos os cursos. Psicólogos, administradores, médicos, arquitetos, engenheiros, farmacêuticos fariam sua categoria passar menos vergonha com este filtro higienizador de incompetência generalizada.

Criatividade, entendida como a capacidade de solução de problemas novos com idéias e conceitos fora do padrão que agregam valor ao negócio em que se insere, também é uma competência importante que ajuda àqueles que a possuem como reconhecida e aproveitada por aqueles a seu redor. O quê, dependendo do chefe-mala que se encontra pela frente, pode ser muito difícil de se conseguir.

Além destes elementos acadêmico e criativo, os profissionais precisam se dispor desde o primeiro ano da faculdade a pensar em sua carreira em termos práticos ou técnicos. Os jovens que querem sentar no “Corner Office” (aquele lugar de destaque máximo dos grandes executivos de torres de marfim) logo que recebem seu diploma, precisam aprender a “comer um pouco de grama” antes de se refestelar nos “fringe benefits” corporativos — aqueles benefícios supérfluos e invejados pelos seres normais.

Antes de pós-graduados ou virtuosos pianistas, estes jovens precisam aprender sobre o instrumento carregando-o, para mostrar a força de seu caráter e motivação. Antes de esperar o salário e bônus que brilham nas páginas da Exame, precisam aprender a ganhar em experiências, credibilidade e competência, entregando um trabalho de qualidade e no prazo combinado.

Muitos jovens podem aproveitar para surfar nestas ondas de progresso econômico, que poderão não passar de enganadoras marolinhas, às quais podem até sobreviver e curtir. Entretanto, para aqueles que queiram estar prontos para, mais do que surfar, navegar em alto mar – revolto ou não – com um Norte firme e decidido, devem estar prontos para conhecer cada posto de sua embarcação – do porão ao convés, do esfregão ao leme, antes de chegarem à cabine de comando.